Marcello abre seu diário íntimo com o projeto “Madrigal”

Projeto solo começou com um joguinho de Xbox.


O que faz uma música ser considerada “boa” no ano de dois mil e vinte? Como a gente consegue detectar o fator X, aquele “a mais” num artista e vislumbrar grandes feitos, letras tocantes e melodias envolventes? São perguntas que tenho me feito, há algum tempo, sem grandes respostas, senão a redenção aos clichês sentimentais que, de alguma forma, fazem sentido. Ouvir “Madrigal” me trouxe essas reflexões de volta e a certeza de que, quando a música toca no íntimo, razão nenhuma importa.

Projeto solo do Marcello Viana, baixista da banda Noturna, “Madrigal” parece o diário secreto de um jovem introspectivo. Sincero, potente e com assinatura na composição, as músicas imprimem uma originalidade difícil de comparar na cena indie paraense.

Esse diário musical é cheio de confissões como “uma vez eu te vi se vestindo e me senti bem por 10 segundos e mal por uma semana inteira”, canta em “Inocente Demais Pra Esse Mundo Cruel”. Despeja altas doses de sinceridade em “Mares de Choros” como  “eu quero ver você chorando todo dia quando eu não estiver aí do seu lado” e “por favor, não me prometa nada que você vá se arrepender depois”.

A sensibilidade de Marcello divide espaço com sua sinceridade emocional, e nem precisamos dos versos pra sentir isso. A música que abre o EP “Tudo Bem”, lançado em 2017, é a instrumental “Aviões” que coloca o ouvinte no mood do álbum melódico. A partir dela, já dá pra sentir o nível de produção e profundidade do trabalho, gravado em casa inteiramente por Marcello.

As primeiras produções foram registradas com um headset de Xbox que dava a possibilidade de gravar as criações. “Me sentia muito satisfeito de botar no papel (no caso, em uma digital audio workstation grátis) as ideias que muitas vezes morriam na minha cabeça ou no gravador de voz do celular”, conta o músico. Com esse estímulo, saíram produções influenciadas pelo New Wave britânico de bandas como Cocteau Twins, New Order e The Cure. Mas prefere não se comprometer com referências. “No fim, influências são promessas arriscadas que apontam uma direção e quando você ouve o trabalho pode ser outra completamente diferente. Pode ser até que os paralelos traçados pelo artista nada tenham a ver com a realidade da música. É tudo bem subjetivo e eu sou bem desligado”, explica.

Assim como com as referências, teremos que abrir mão da ansiedade para ter novos sons de Madrigal. Um EP e dois singles já estão nas redes à disposição de velhos e novos ouvintes. Mas ainda não temos uma posição sobre o lançamento de mais um capítulo desse diário. “Numa visão mais geral, quero deixar tudo em aberto. Quero continuar fazendo as músicas que eu gosto pensando que se eu tocar, alguém vai querer ouvir. Numa visão mais concreta, pretendo lançar um álbum no ano de 2020 ainda. Promessa é dívida, e não tenho como garantir que essa eu consigo pagar”, se esquiva.

Se ficou na expectativa dessa meia-promessa, segue as redes do “Madrigal” e acompanha os passos do Marcello, seja no projeto solo ou na Noturna.

0 I like it
0 I don't like it

(Jornalista)

Gustavo é jornalista e gerente de comunicação do selo Urtiga.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *