Universo distópico brasileiro é tema de “Anticidade”, single da banda “Os Bandoleiros e a Cigana”

A voracidade da composição lembra o rock brasileiro dos anos 80, politizado e alerta às mudanças sociais e suas consequências nocivas.

“Quero estar vivo pra poder contar” é o desejo final que a “Os Bandoleiros e a Cigana” traz, aos gritos, em “Anticidade”,  single lançado no último 24 de abril. O conceito do nome da música é emprestado dos estudos urbanistas para definir um lugar não propício à habitação, “hostil, violenta, inabitável e insegura” define Tamires Nobre, baixista da banda. No lyric video do single, a banda traz recortes de notícias sobre problemas sociais em Belém e Ananindeua (as maiores cidades da região metropolitana da capital paraense) com mensagem assertiva: tá quase impossível viver minimamente bem nos centros urbanos do século XXI.

Embebidos numa atmosfera cyberpunk, “Anticidade” é a canção-tema perfeita para um possível “Blade Runner” versão amazônida. A sujeira clássica do punk em loop agonizante traduz insatisfação e opressão das mazelas urbanas contemporâneas. “Quem nunca desistiu de fazer algo porque se sentiu inseguro ou porque não tinha como ir/voltar [pra casa]?” questiona Tamires, confirmando o papel do artista de transformar as insatisfações que vivem na pele em música. “São pequenas coisas no nosso cotidiano que acabam, ao longo prazo, afetando a nossa saúde física, mental e até influenciando em assuntos decisivos na nossa vida”, pontua.

A banda, formada por Diego di Paula (voz, guitarra), Tamires Nobre (baixo, voz) e Isma Rodrigues (bateria), está ativa no circuito de palcos alternativos da capital desde 2016, oferecendo rock na sua forma mais pura e sempre levantando questionamentos existenciais conectados com o espírito do tempo, excluindo interpretações romantizadas sobre globalização e qualquer pensamento ligado à prosperidade capitalista. 

Junto da música, Os Bandoleiros e a Cigana trazem a capa do single e o lyric video como plataformas visuais para criar essa narrativa citada pela baixista. “A capa imprimiu muito bem a nossa conexão com a cidade que nos suga. Somos reféns dela. Precisamos dela por uma condição e ela de nós pra funcionar, mas não queremos essa pressão sempre”, explica Diego sobre a peça criada pelo ilustrador Cássio Carvalho.

“Busquei representar essa relação simbiótica que temos com a nossa cidade, afinal ela foi criada teoricamente para nos ajudar, para atender nossas necessidades, nosso ir e vir, nossa liberdade. Mas é contraditório como ela nos aprisiona, nos tranca, cria um série de dificuldades que me fazem pensar: em que ponto da história ela passou a ser agressiva e tão anti-vida? Ou sempre foi assim?”, questiona o artista autor da capa do single.

“O Brasil vive uma realidade que, se contada há poucos anos atrás, ninguém acreditaria. É como um livro distópico, tão surreal que te choca, te faz chorar e te faz rir ao mesmo tempo de tão absurdo. Estamos construindo uma narrativa visual e até das músicas em si em cima desse caminho distópico, mais especificamente em cima do cyberpunk, um tema do qual somos muito fãs.”

antecipa Tamires sobre os próximos passos da banda.

Os questionamentos não ficam só no campo dos debates. A banda, enquanto ser ativo dessa “anticidade” também enxerga que precisa ser força contra-fluxo para gerar um movimento de mudanças, à procura de ares mais saudáveis. Se perguntando:

“Que formas podemos facilitar o acesso à arte de quem mora longe do centro? A descentralização de eventos e também a escolha de horários/dias da semana mais acessíveis para quem trabalha e depende de transporte público são algumas coisas que os fazedores de cultura podem pensar como forma de contribuir [para a mudança]. Nós da Bandoleiros estamos buscando implementar essas ideias nos nossos futuros eventos”

promete Tamires.

Todo o processo de produção e registro da música foi narrado no making of publicado pela banda no Youtube. Confere:

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(Jornalista)

Gustavo é jornalista e gerente de comunicação do selo Urtiga.

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