Crises e esperanças dos estudantes que querem se tornar jornalistas culturais

Quando falta disciplinas de cultura na formação superior de jornalismo, como se preparar para ser destaque no mercado?

É inspirador poder perceber que muitos estudantes têm brilhos nos olhos pela possibilidade de poder trabalhar com jornalismo cultural. “Meu sonho”, declara o estudante de jornalismo da Universidade Federal do Pará (UFPA), Lucas Ribeiro, de 20 anos. Conversando com alguns deles, podemos perceber que essa paixão começa com o consumo de peças artísticas, ainda que suas primeiras referências sejam o mais novo sucesso radiofônico ou uma franquia de blockbusters.

No caso de um jovem que nasce e cresce em Belém do Pará, as referências podem vir de uma forma inusitada. A multimídia recém-formada, Luísa Brasil, 25, era pautada na adolescência pelos clipes da MTV, mas também pelos da Tv Rauland, pequena emissora de alcance local que tinha uma curadoria bem diferente da global estadunidense. Todo humano consome e vive cultura com diferentes amores e intensidades. E essa lei, talvez, seja a causa do deslumbramento por trabalhar com algo que, aparentemente, só provoca prazeres.

Na contramão, há cada vez menos espaços para introduzir esses estudantes no universo do gênero jornalístico. Franthiesco Ballerini, jornalista, crítico e professor, fez um apanhado de dados sobre o ensino do jornalismo cultural nas instituições de educação superior brasileiras. A conclusão estampa a invisibilização dessa importante área do jornalismo. De acordo com o último censo sobre o ensino do jornalismo cultural no Brasil, feito em 2008 pelo programa Rumos Itaú Cultural, a disciplina ocupa menos de 13% da grade dos 356 cursos de jornalismo disponíveis no país — apenas 126 deles abordam o tema e somente 16 são exclusivas sobre jornalismo cultural.

A dúvida é como formar profissionais que estejam aptos para “investigar, decifrar, traduzir, provocar e desnudar” a cultura, como afirma Franthiesco, que também destaca a necessidade de uma formação prática na área. Tentando preencher essas lacunas deixadas pelas faculdades e universidades, os estudantes criam suas próprias oportunidades de aprender e praticar o jornalismo cultural, seja com projetos paralelos, trabalhos da faculdade ou estágios voluntários.

Lucas Ribeiro não esperou o início da faculdade pra começar a escrever sobre cultura. “Na verdade, eu sempre fui apaixonado pelo mundo da comunicação. […] eu mesmo fui fazendo alguns projetos, não necessariamente de jornalismo musical. […] desde muito cedo, eu já tinha um canal no YouTube que falava sobre livros, depois comecei a falar sobre filmes e por último fui misturando com música”, relembra o estudante, que hoje escreve para o site de música Tracklist, parceiro de conteúdo da MTV Brasil, produz um podcast sobre entretenimento e comemora quatro anos de canal no YouTube.

Em um dos vídeos mais visualizados de seu canal, Lucas Ribeiro analisa as referências da música e do videoclipe de “7 Rings”, de Ariana Grande.

A influência e apoio da família foi um diferencial na trajetória de Lucas com a cultura e ajudou a manter viva a certeza de que pretende trabalhar na área. “O jornalismo cultural pra mim é muito importante porque é a extensão da minha personalidade, por eu sempre ser muito curioso, ter essa alma de jornalista”, confessa o estudante, que recebe grande influência de professoras do seu curso que já trabalharam na área cultural.

Já os pais de Isabela Viana, estudante de jornalismo de 26 anos da Universidade da Amazônia (UNAMA), não foram tão favoráveis à escolha do curso. Por isso, antes de enveredar no caminho do jornalismo, cursou dois anos de engenharia civil. A mudança só veio depois que eles perceberam a infelicidade da jovem com os estudos. Em Comunicação, descobriu na Rádio Unama a paixão pela produção de programas de música, o que tem feito desde o segundo semestre do curso; hoje, ela passa pelo sétimo. O estágio é voluntário e, ainda que dispute atenção com o segundo estágio, esse sim com bolsa, sempre teve lugar reservado nas prioridades de Isabela.

“Tenho maior amor por tudo, pelas pessoas, pelos profissionais de lá. Cresci, amadureci e aprendi muita coisa e eu agradeço a cada um por todas as oportunidades”

derrama gratidão pela experiência adquirida na rádio.

Hoje, Isabela é produtora do programa “Terruá”, vitrine para artistas paraenses apresentado por Ney Messias e veiculado pela Rádio e Tv Unama. Dessa experiência, surgem diferentes influências: de um lado, profissionais ensinam e encorajam a estudante a seguir os sonhos do jornalismo cultural; de outro, jornalistas despejam preocupações quanto à crise do mercado de noticiários.

“[Me] falaram que eu tinha uma visão romântica da profissão. Eu confesso que foi um tapa. É meio complicado porque eu sou apaixonada pelo que eu faço. Eu acho que o jornalista tem que agir junto com a comunidade e [também] levar entretenimento, cultura.  Escutar isso foi muito ruim. Se eu me especializar, vai ser muito legal e eu vou ter muito conhecimento na área que eu gosto”

afirma Isabela, que já visa uma Pós-Graduação em Jornalismo Cultural depois de terminar o curso.
Edição do programa “Terruá”, apresentado por Ney Messias com colaboração na produção de Isabela Viana, aluna de jornalismo da UNAMA.

Por uma trajetória bem diferente de Lucas e Isabela, a multimídia Luísa Brasil descobriu a vontade de trabalhar com cultura no meio do curso. Por conta do seu amor ao rádio, optou pelo jornalismo. Pelo seu grande amor à cultura, o abandonou. O curso de Multimídia, na Estácio de Belém do Pará, surgiu como uma forma de desenvolver mil e uma habilidades de trabalhar com produção cultural.

“Hoje eu saco de edição de vídeo, fotografia, roteiro, até aprendi a programar [algoritmos], fazer jogos, direção cinematográfica, enfim, outros rolês que abraçam outras mídias tanto no conteúdo quanto na produção”

conta Luísa.

Tendo desenvolvido diversos projetos que colocam a cultura paraense em evidência, Luisa Brasil gerou uma visão complexa sobre a cena de cultura da capital do estado e alerta aos mais novatos: “a principal dificuldade da cena de cultura pra quem tá começando é a falta de contatos”, aponta. “Porque ela funciona como uma grande rede onde tu precisas entrar e se conectar pra que assim tu tenhas mais conhecimentos, aprenda sobre como as coisas acontecem, onde precisas dar mais atenção e aos poucos criar teu nome, mas mantendo o foco no prol maior que é a difusão da nossa cultura”, conclui a comunicóloga, que sonha em ser diretora de produtos audiovisuais que mostrem “uma Amazônia com mil outras Amazônias”, pois acredita que seu papel é de “ajudar a dar força a vozes que o mundo precisa ouvir e ser ferramenta desse processo”.

Ainda que jovens, esses aspirantes a jornalistas e produtores culturais já entendem que meados de 2019, quando nos encontramos, não é um dos momentos mais toleráveis a produção de cultura, principalmente por um olhar governamental. “Esse novo governo mostra cada vez mais que não se importa com a cultura e acaba, às vezes, desmotivando a gente”, confessa Lucas. Em tom de cobrança, muito pelas experiências em movimentos políticos culturais como o PROA (Produtores e Artistas Unidos) de 2015, Luísa questiona que “enquanto se acreditar que óperas restritas são mais importantes que quadrilhas juninas, teremos dificuldades de vivenciar verdadeiramente nossa cultura e a democratização desse acesso”.

No texto que discute o ensino de jornalismo cultural, Franthiesco Ballerini conclui que a “formação do olhar jornalístico em assuntos culturais é estruturante para todas as outras áreas”. Entender o mercado musical, a influência hollywoodiana no mundo ou as mudanças trazidas pelo serviço em demanda, como Spotify e Netflix, ele exemplifica, não devem se resumir somente aqueles que pretendem trabalhar com textos descritivos, analíticos e críticos sobre artes, mas sim todo aquele que receber um certificado de jornalista.

Enquanto isso não acontece, há a necessidade de uma formação paralela de jornalistas culturais, mesmo porque há poucas vagas em redações de cadernos de cultura reservados para esse gênero. Cursos livres e projetos paralelos ainda soam como oportunidades únicas para o aspirante a crítico de arte ou mesmo para aquele que busca entender se seu sonho um dia poderá dar sinais de realidade.

O jornalismo cultural continua atual e necessário, principalmente em momentos de cerceamento da liberdade artística e de expressão. As artes não cessam, ainda que com poucos investimentos. Elas criam raízes em outros lugares, criam novos movimentos e se adaptam para preservar sua existência. São necessários olhos, ouvidos, tato, paladar e olfato atentos e sensíveis com dedos e plataformas ágeis para registro de tudo. Quem são os jornalistas que contarão essas histórias no futuro?

Reportagem: Gustavo Aguiar
Edição: Isa Moraes
Arte: Fil Alencar


A série “Especial Jornalismo Musical” teve início em 1º de abril como forma de marcar o Dia do Jornalismo, em 7 de abril. Em 7 publicações, o site Coceira investigou crises, problemáticas, mudanças, permaneças, tendências, esperanças e opiniões sobre a prática do jornalismo cultural e musical em Belém do Pará e em todo o Brasil. Durante a série, produzida e escrita por Isabella Moraes e Gustavo Aguiar, foram colhidas entrevistas de: Franthiesco Ballerini, Gaía Passarelli, Roberta Martinelli, Pedro Antunes, Esperança Bessa, Marly Quadros, Leandro Moreira, Dominik Giusti, André Felipe de Medeiros, João Pinheiro, Rafael López Chiocarello, Luísa Brasil, Lucas Ribeiro e Isabela Viana.


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(Jornalista)

Gustavo é jornalista e gerente de comunicação do selo Urtiga.

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