Entrevista: Roberta Martinelli explica como um programa da TV aberta pode se manter relevante em plena era digital

Apresentadora e criadora do “Cultura Livre”, Roberta fala sobre as mudanças no jornalismo musical na TV.

Nos últimos anos, houve um aumento no uso de TVs no Brasil, porém o conteúdo que predomina nos aparelhos não vêm dos canais abertos ou de assinatura, e sim das plataformas de streaming e de vídeos online. Diante dessa realidade, os programas televisivos que não se moldam de acordo com as novas demandas do público sobrevivem em um cenário de incertezas.

Os programas sobre música brasileira se tornaram quase inexistentes na TV aberta depois do fim da MTV em 2013, o que não significa que se tornaram dispensáveis. Em meio às avalanches de informações e lançamentos diários na internet, as mídias tradicionais ainda mantêm uma relevância em sua curadoria dos maiores destaques, é o que ocorre com o programa “Cultura Livre”, transmitido pela TV Cultura de São Paulo.

O programa completa dez anos de transmissão e hoje é considerado uma das maiores referências na televisão brasileira para a música nacional fora da rota mainstream. Criado e apresentado pela jornalista Roberta Martinelli, o programa mostra novidades da música brasileira, recebendo os artistas e bandas do circuito musical alternativo contemporâneo que geralmente não possuem espaço na programação regular da TV aberta. No estúdio, os convidados tocam suas músicas e respondem perguntas da audiência e da apresentadora.

A edição do “Cultura Livre” com a cantora Letrux tem uma das maiores visualizações do programa em seu canal no Youtube.

Ao invés de tentar disputar audiência com o Youtube, maior plataforma de conteúdo audiovisual atualmente, o programa faz desdobramentos de conteúdos exclusivos para essa plataforma. No canal do Cultura Livre no Youtube, o público pode assistir às gravações do programa ao vivo, assistir aos artistas e bandas interpretando versões diferenciadas de músicas suas ou de outros compositores (quadro conhecido como “faixa bônus”), pode ter acesso aos bastidores do programa e, ainda por cima, pode assistir a todos os programas que foram ao ar na íntegra ou divididos em “faixa a faixa”.

O quadro “Faixa Bônus” é um dos conteúdos do programa Cultura Livre exclusivos para seu canal no Youtube.

Com oito temporadas no ar, o “Cultura Livre” se tornou um ótimo exemplo de programa televisivo musical que conversa com as plataformas digitais e assim mantém sua relevância. Letrux, Duda Beat, Céu, Baco Exu do Blues, Baiana System e outros nomes expressivos da música brasileira contemporânea já foram potencializados no programa. Os bons trilhos que ele segue são frutos do trabalho da jornalista responsável, Roberta Martinelli, que não desvia o olhar das mudanças e avanços necessários para o programa não se tornar defasado. Com ela, conversamos mais a fundo sobre sua carreira e visões sobre o jornalismo musical para os dias de hoje. Confira a entrevista na íntegra,

Qual sua trajetória no jornalismo musical?

Eu sou formada em teatro e Rádio e TV. Quando fui estudar Rádio e Tv sempre pensava nos dois como meios para divulgação de qualquer manifestação artística. Meu primeiro trabalho foi como estagiária na Rádio Cultura FM em programas de música erudita como Pianíssimo com Gilberto Tinetti, Laudate Dominum com Amaral Vieira. Nesse tempo eu comecei a fazer o piloto de um programa de música brasileira para a Rádio Cultura AM — um programa com repertório de músicas atuais — e assim surgiu o Cultura Livre, meu primeiro trabalho contratada. No Cultura Livre, eu entendi a importância do jornalismo cultural, como era rico mapear a produção musical do país e quanta música tinha para ser lançada ali. Depois disso, o programa foi para a televisão, a TV Cultura, e neste ano completa 10 anos no ar. Passou muito rápido e a quantidade de lançamentos só cresce!

Em 2016, comecei um programa na Rádio Eldorado chamado Som a Pino e foi super importante levar esse repertório de música brasileira para uma rádio comercial. Também apresento o “Prelúdio”, concurso de música clássica na TV Cultura e o podcast “Essenciais” na Deezer com os artistas fundamentais da música brasileira. Escrevo uma coluna semanal no Estado de São Paulo com as novidades da música brasileira.

Como podemos pensar o jornalismo musical para mídias “tradicionais” com as mudanças no consumo de informação?

Esse é o grande lance. “Ninguém escuta rádio” algumas pessoas dizem e talvez o formato tradicional, as mesmas músicas, o jabá, tenham desgastado mesmo o ouvinte. Mas é super especial perceber que um programa com músicas brasileiras que não são tão conhecidas (pois não são divulgadas) tenha uma recepção tão calorosa e tanta audiência como o Som a Pino teve.

Acho que como você faz é muito do que você faz. Por exemplo: vou fazer um programa feminista mas a equipe só tem homens (hummmm desconfio). O Cultura Livre começou numa rádio AM, então eu transmitia tudo pela twitcam, face (que na época eram ferramentas novas). Até hoje a gravação do Cultura Livre é transmitida toda ao vivo (com todos os erros e coisas acontecem numa gravação) e depois passa na TV…ou seja, é um programa feito ali na hora e a TV é quase a reprise, sabe? Acho que precisamos pensar essas novas maneiras para os meios tradicionais.

Como as mudanças no consumo da música afetam o jornalismo musical?

Elas afetam muito! Hoje em dia as músicas são gravadas, lançadas, cada um de uma maneira e nisso muita produção fica de fora dos meios tradicionais mas ainda bem que temos um mundo todo na internet que dá conta dessa riquíssima produção. O jornalista cultural tem que estar lá, baixar músicas, e ir atrás para conhecer tudo. Muitos ficam esperando o disco chegar para escrever sobre, mas tem discos que nunca chegam, porque não são nem feitos.

Com os jornalistas pesquisadores que estão “antenados” nas novidades e eu acho que muitos dos destaques surgem se destacando, sabe? A Letrux é um bom exemplo. A cantora lançou um disco, lotou shows, [fez] muitos fãs, e fica inevitável não falar dela. Acho engraçado aquelas matérias “as apostas da música” – pois a real é que ninguém sabe o que vai se destacar até que se destaque. Esse trabalho de adivinhação é legal mas não é possível, sabe?

O que os novos jornalistas musicais precisam ter em mente sobre produção de conteúdo e mercado hoje em dia?

Eu acho que no momento em que estamos vivendo, com o Brasil do jeito que está e cortes nas artes, é muito importante que os jornalistas musicais saibam da importância do trabalho que fazemos. Arte é política.  

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Isa é jornalista e gerente de distribuição do selo Urtiga.

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