Os desafios dos assessores de imprensa: novos meios, pouco investimento e busca por versatilidade

Em meio ao desmonte de políticas públicas para a cultura e os avanços das redes sociais, os assessores de imprensa são convidados a se reinventar.

Capas de revista, destaques em sites, coberturas ao vivo e participações em programas de rádio e TV. Quem vê os artistas ocupando esses espaços muitas vezes não imagina o trabalho necessário para conseguir esses holofotes. Com uma visão estratégica, é o assessor de imprensa quem torna a ponte entre o artista e os veículos de comunicação mais segura e firme, sendo uma função que precisa caminhar ao lado das mudanças dos meios e garantir a versatilidade para os seus clientes em tempos de likes e views.  

A cultura paraense é uma efervescência e as páginas dos cadernos de cultura e os minutos de reportagens na TV não são suficientes para todos. Nessa disputa, o assessor de imprensa surge como uma peça estratégica na carreira de um artista ou na divulgação de um evento ou projeto cultural. É o que defende o jornalista paraense Leandro Moreira:

“Para quem atua nesse mercado, [é necessário] ter na equipe de trabalho o profissional capaz de compor um discurso ideal e pensar na melhor maneira de traduzi-lo para o público-alvo. Por conta dos hábitos de consumo de informação da nossa época, isso se tornou mais do que um capricho: virou uma necessidade.”

Com trabalhos na assessoria de imprensa e marketing digital para Dona Onete, Juliana Sinimbú, Lucas Estrela e O Cinza, além de grupos como Psica Produções, a produtora de eventos Cacique e o Festival Floresta Sonora, Leandro Moreira percebe que hoje em dia fazer um mero release não é o suficiente. O aumento do consumo de informações pelas redes sociais modificou a dinâmica das funções do assessor de imprensa:

“As redes sociais deram voz e diminuíram a distância entre as pessoas. Formas diferentes de compartilhar conteúdo trouxeram inúmeras possibilidades de transmitir o que uma pessoa tem a dizer para quem quiser ouvir. Isso vale pra todo mundo: marcas, causas e (claro) artistas! Com a internet, o público é cada vez mais uma grande audiência durante o tempo inteiro. E isso vai além dos shows. Elas querem saber tudo sobre quem estão seguindo – o que fazem, do que gostam, no que acreditam, etc. Entender e trabalhar isso é um investimento muito válido na construção e fortalecimento da imagem”

afirma Leandro.

Entretanto, tendo em vista o espaço cada vez menor nas mídias tradicionais, ser a capa de um jornal ou conseguir aquele programa de TV na hora do almoço é uma conquista para o artista ou evento, é o que afirma Leandro: “Como não existe aquela urgência de comunicar o factual, a apuração em vários casos é melhor, resultando em matérias de alta qualidade. Vale lembrar também a importância do clipping em relatórios para patrocinadores”. Para a jornalista, que também atua como assessora de imprensa cultural, Dominik Giusti, esses veículos possuem um papel que as redes sociais ainda não alcançaram completamente:

“O acesso às redes sociais faz com que o artista produza o seu próprio conteúdo da maneira que ele quer, sem uma visão crítica, e a imprensa tradicional tem a liberdade de fazer o contraponto do artista, trazendo uma legitimação e propondo um novo olhar do que o artista diz sobre si e sua produção. Esses veículos têm a amplitude de chegar em outros públicos que o artista não alcança com as suas redes como, por exemplo, um jornal que tem circulação em todo o estado”

analisa Dominik.
Conseguir destaque nas poucas folhas dos cadernos de cultura ainda é um prestígio na carreira de artistas.

Atualmente trabalhando com a assessoria de projetos como Orquestra Sinfônica do Theatro da Paz, Amazônia Jazz Band e Mestre Cupijó, Dominik Giusti revela que o cenário para trabalhar com a assessoria de imprensa para cultura já foi mais fácil. Com as recentes mudanças de prioridades do executivo federal, a captação de recursos para a cultura ficou mais complicada e afeta diretamente os assessores de imprensa:

“Em meio à um desmonte da cultura por parte do governo, com extinção do Ministério da Cultura e cortes de verbas de grandes empresas, como Vale e Petrobras, para projetos culturais, acredito que a maior dificuldade é se sustentar de cultura, tanto para os artistas quanto para os jornalistas. Eu comecei a trabalhar nessa área porque vários editais da Funarte tinham como requisito, inclusive para apresentar o projeto,  a carta de anuência de um jornalista, para que ele fizesse a comunicação do projeto, e cheguei a dar até dez cartas de anuência. Hoje isso é um desafio com essas reconfigurações de políticas públicas de cultura”

afirma Dominik.

Assim como em todas as áreas do jornalismo, é necessário ter em mente as novas mídias para reinventar suas funções, sendo ao mesmo tempo um desafio e um diferencial. Na visão de Leandro, é necessário também oferecer um serviço cada vez mais completo para os clientes:

“Sobre os clientes, eu acho que temos um desafio constante. Cada vez mais, é preciso se reinventar e se especializar em diferentes frentes de atuação para valorizar o serviço. O assessor de imprensa que estudar marketing digital tende a oferecer um produto mais dinâmico e atraente para o mercado, assim como um fotógrafo que se especializa em captação e edição de vídeo.”

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Isa é jornalista e gerente de distribuição do selo Urtiga.

2 Comments

  1. Excelente conteúdo.

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