Os órfãos dos VJ's da MTV querem saber: onde estão os grandes nomes do jornalismo musical?

Da MTV aos stories do Instagram, os jornalistas estão mostrando a sua cara.

Em 20 de outubro de 1990, entrava no ar a MTV Brasil, a primeira rede de televisão sobre música que ainda por cima era pensada inteiramente para o público jovem. A nossa MTV foi a terceira versão do canal no mundo e a primeira lançada em um canal aberto, sendo ainda o pioneira no país com uma programação 24h. Foi ali que muitas carreiras foram impulsionadas, tanto para músicos e bandas quanto para para jornalistas musicais.

Mesmo tendo grande influência no público nas suas primeiras duas décadas de vida, em 2010 a MTV começou a sentir os baques da sua maior concorrência, a web. Gaía Passarelli, jornalista e ex-VJ (2010-2013), entrou nesse momento na emissora e já não sentia a mesma relevância que o canal tinha nos anos 90:

“Num dado momento, culturalmente, a MTV no Brasil não estava competindo com nada, claro, havia o rádio, jornais e revistas, mas eram mídias completamente diferentes, então ela teve um peso enorme para construir carreiras, foi importantíssima aqui no Brasil. Manguebeat, o pop rock brasileiro desse período, Raimundos, Planet Hemp, a volta da carreira da Rita Lee… puts, mil coisas aconteceram, não apenas por causa dela, mas junto com ela, então tinha um peso total”

afirma Gaía.

Gaía Passarelli foi apresentadora de vários programas na MTV Brasil entre 2010 e 2013, entre eles, o Extrato MTV

Entretanto, o crescimento do Youtube e das redes sociais sugaram a relevância de programas dedicados a videoclipes, e os ajustes feitos na grade de programação não foram suficientes para resgatar a audiência. Em 30 de setembro de 2013 a MTV Brasil fechou sua transmissão aberta, e a influência que tinha se diluiu pelos novos formatos de consumir comunicação. Para Gaía, o fim da MTV já era fadado e até tardou a acontecer:

“As pessoas continuam consumindo música pra c*ralho, independente da MTV, inclusive acho que ela durou mais tempo do que ela tinha que ter durado. Não sou uma saudosista do tempo da MTV, ela parou de rolar no mundo inteiro, não foi só aqui. Esse formato de videoclipe e programa de música na televisão já engatou, ficou no passado, e bola pra frente”

defende a jornalista.

Com o fim da MTV, os VJs também migraram de área, inclusive saindo do jornalismo musical, como é o caso de Gaía Passarelli, que hoje assina como escritora, tendo como título mais famoso “Mas você vai sozinha?” (2016), e trabalha no setor de publicidade do Buzzfeed Br. Hoje com 42 anos de idade, a escritora confessa que é um exercício acompanhar as mudanças na comunicação:

“Existe um desafio muito grande pra minha geração, que tem 40 anos hoje, em acompanhar as mudanças culturais que acontecem que estão muito ligadas com a forma que a gente consome informação, e existe um desafio muito grande sem virar o tiozão do rolê.”

assume Gaía

Alguns VJ’s, como é o caso do apresentador e músico Thunderbird e do jornalista Gastão Moreira, migraram para o Youtube para continuar o conteúdo informativo sobre música, querendo ou não, com aquela carinha da MTV. Tanto o Kazagastão quanto o Music Thunder Vision, mesmo com um considerável número de inscritos e com um conteúdo extremamente informativo, disputam hoje espaço com produtores de conteúdos mais jovens e conectados com as novas linguagens e que, por isso, possuem um alcance maior, mesmo não tendo a mesma profundidade nas informações e discussões transmitidas.

O NOVO SEMPRE VEM

Talvez não veremos programas sobre Carne Doce, O Terno e Duda Beat no Music Thunder Vision, o que não é um grande problema, pois há novos nomes no jornalismo musical que estão tomando a frente nessa repaginada do conteúdo musical. Pedro Antunes é editor da Rolling Stones desde novembro de 2018 e hoje tem nas mãos o desafio de reposicionar digitalmente a marca, que esse ano voltou a bater seus próprios recordes de visualizações no site e ainda este mês chega com um novo canal no Youtube.

Além de editor da Rolling Stones, o jornalista Pedro Antunes mantém nos stories do seu Instagram o programa de música “Tem um Gato na Minha Vitrola”.

Pedro Antunes, ainda como repórter de música no Estadão, começou a perceber as mudanças de comportamento do público nas redes sociais e entendeu algumas mudanças que os jornalistas musicais precisam aderir. Precisamos ter em mente que há uma crise nas redações e os “passaralhos” são uma realidade há alguns anos. Diante disso, o jornalista precisa ter um peso no seu próprio nome e imagem:

“É preciso estar nas redes sociais e entender essa linguagem, o jornalista não pode mais ser um nomezinho assinado no começo de uma matéria, seja ela no papel, no portal ou na rádio, ele precisa ter um rosto, ele próprio precisa ser uma marca. Você pode estar fazendo um ótimo trabalho e mesmo assim ser demitido por corte de grana, por isso não podemos mais ficar escondidos como ‘repórter do jornal tal’, é preciso ser o ‘repórter de música, atualmente no jornal tal’. O jornalista é o produtor do conteúdo, não o jornal, não o veículo pra qual você trabalha, e isso é uma coisa que os youtubers e influencers já entenderam, mas os jornalistas ainda não. Eles precisam entender que também são produtores de conteúdo e a sorte é do veículo que está recebendo esse conteúdo nesse dia e pode ser que ele não vá receber para sempre”

defende Pedro.

Foi a partir desse pensamento que Pedro Antunes, com 31 anos na época, passou a publicar, nos stories do seu Instragram (@poantunes), suas impressões de lançamentos de disco e criando naquele espaço o programa “Tem um Gato na Minha Vitrola”, vencedor do Prêmio SIM em 2017 na categoria inovação. Dando suas opiniões e entrevistando nomes como O Terno, Mallu Magalhães, Letrux, Maglore, Maurício Pereira e muitos outros, Pedro construiu uma autoridade de conteúdo em cima do seu nome ao mesmo tempo que assinava suas resenhas e entrevistas nos portais em que vem trabalhando.

Entendendo esses novos comportamentos, Pedro está a frente das mudanças na Rolling Stones, tendo em mente que hoje a revista que circulou entre 2006 e 2018 e migrou integralmente para o meio digital, disputa a atenção do público com diversos novos portais e produtores de conteúdo. Na sua visão, na internet, os jornalistas estão falando ao mesmo tempo que milhares de outras pessoas e por isso é preciso produzir o conteúdo de forma estratégica para se destacar no excesso de informações:

“Quando temos quinze ou mais portais que podem soltar aquela notícia, além dos jornais e outros produtores de conteúdo, como os próprios artistas, precisa ter muito critério para entender o que merece um espaço que é tão raro no meio de tanta informação. Além disso, é necessário ter um conteúdo diferenciado e multiplataforma. Não adianta você fazer um conteúdo que todo mundo já tem, sua informação vai circular de alguma forma mas se você quer atingir um público maior é preciso entender a linguagem e prezar pelo conteúdo diferente e de qualidade que, entre as diversas manchetes iguais, vai valer o clique.”

afirma, Pedro.

Seja no vídeo, no impresso ou na rádio,  em meio ao caos de informações, o jornalismo musical sobrevive e se diferencia atualmente não mais pelo factual, mas sim pelo seu conteúdo analítico, pela opinião especializada. Essa é a atual diferença entre os jornalista e os demais produtores de conteúdo, o que significa que os jornalistas podem (e devem!) aprender muito com esses novos comunicadores.

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Isa é jornalista e gerente de distribuição do selo Urtiga.

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