Tudo o que hoje é sucesso já passou por um blog de jornalismo musical

A internet trouxe para o jornalismo de música muito mais que a proliferação de sites: definiu uma nova lógica de consumo e questionou até os gêneros jornalísticos.

Uma revolução tecnológica não vem sozinha. Ela transforma a sociedade, em todos os seus âmbitos. A internet não mudou só o jornalismo musical, mas todo o mercado da música se reestruturou a partir de mudanças de comportamento que foram demandadas pelo próprio público.

Hoje, tem artista que lança single, outros apostam no experimentalismo das mixtapes e dos EPs de audição compacta. Grande parte do mercado aposta em videoclipes, enquanto discos inteiros são lançados com suportes audiovisuais. Tem banda que sonha em lançar vinil. Tudo isso pra mostrar que o mercado, hoje, não tem uma só lógica ou um caminho único pro sucesso. E, por mais infinita que seja a internet, um site, jornal, programa, instagram, o que for, não consegue dar vazão a todo o universo de produção musical existente no mundo. Eles precisam se setorizar, definir filtros e escolher que nicho vão atingir.

É verdade que o jornalismo musical dos cadernos de cultura migraram para os sites dos mesmos conglomerados de mídia, ocupando a internet com essa produção. Mas é inegável o papel dos blogs de música na relação entre o público e, principalmente, as novidades da música brasileira e mundial. 20 anos depois, os blogs continuam firmes, criaram raízes e hoje disputam influência e prestígio com grandes títulos “tradicionais” da mídia. Mas eles também dividem os holofotes com novos protagonistas dessa cena: youtubers, instagramers, twitters e diferentes outros produtores de conteúdo que também influenciam o público com novidades musicais.

Para essa matéria, entrevistamos três jornalistas que assinam publicações na internet: João Pinheiro, que escreve há oito anos no Tenho Mais Discos Que Amigos; André Felipe de Medeiros, repórter e produtor de conteúdo do Monkeybuzz, desde sua criação, além de criador do Música Pavê; e Rafael López Chioccarello, criador do Hits Perdidos, produtor do programa “Dezgorvenadoz” da Mutante Rádio e curador do programa de videoclipes “Udigridi” da Play Tv.

Dessa conversa com três jornalistas jovens, porém com bastante experiência em produção e consumo de jornalismo musical, podemos constatar alguns fatos sobre o que tem sido produzido no universo de criação de conteúdo e informação sobre música.

O primeiro fato define que o papel dos blogs no mercado musical brasileiro é o de curadoria e seleção dessa infinidade de sons por nichos. Com a grande quantidade de novos artistas surgindo no mercado, cabe aos blogs essa primeira seleção, uma primeira triagem daquilo que pode, daqui a pouco tempo, se tornar um grande nome da música independente ou até mesmo mainstream.

“Uma vez, conversando com Thiago Pethit, ele foi mencionar algo que aconteceu em 2009 ou 2010 e disse ‘mas, naquela época, sair no Move That Jukebox já significava ter uma carreira’. […] Eu vi Anavitória sair em todos os sites e blogs antes da grande mídia se tocar no que estava acontecendo ali e no potencial que a dupla tem. Se tá em um Lollapalooza, em um Rock in Rio, no Encontro com Fátima Bernardes, tem música na novela ou em algum programa de rádio, muito provavelmente tem (bom) conteúdo publicado anteriormente em algum arquivo de site independente ou blog”

analisa André Felipe (Música Pavê, Monkeybuzz).

João Pinheiro, natural de Natal, entende o consumo musical por nichos a partir de uma ótica dos cenários isolados e distantes do eixo Rio-São Paulo, onde a circulação de bandas ainda é maior do que nas outras regiões brasileiras (tem coisa que não muda). Pra ele, as cenas locais, a partir da curadoria dos blogs, consegue ultrapassar os limites geográficos e percorrer um fluxo local-global de crescimento de carreira.

“Acho que o Tenho Mais Discos Que Amigos foi um dos primeiros sites a falar sobre o Far From Alaska [conterrâneos de João]. Eles foram atraindo atenção até chegar onde estão hoje. Não foi aquilo que a gente conhecia antes, do global empurrar para o local. Foi do local para o global. Então, acho que esse é um dos maiores casos recentes que prova a importância dos blogs e como eles vão servir de curadoria para o público que lê eles”

explica o jornalista potiguar.

MAS É JORNALISMO?

Há quem se engane achando que são só as mudanças comportamentais que influenciam no jornalismo musical. Rafael Chiocarello (Hits Perdidos) traz à discussão uma questão econômica que também sucateia o jornalismo feito na internet.

“Vivemos em um país que, se formos observar, repassa uma parcela pequena do PIB, para não falar outros termos mais grosseiros, à cultura. E isso se reflete no consumo, seja ele no impresso como também no digital”

lembra Rafael.

O mesmo sucateamento do mercado, da produção de palcos, dos baixos cachês pagos para os músicos, de infraestrutura precária de casas de shows, é também sentido no baixo financiamento em grandes reportagens e conteúdos especiais sobre música e cultura. Por outro lado, a música não para. Semana atrás de semana, novos singles, discos, videoclipes, sessions e tudo o mais, chegam à internet, diversificando ainda mais a música, mas fazendo com que o lançamento, a base do jornalismo musical, se transforme num consumo descartável.

“Em um tempo ‘acelerado’, tem EPs, singles, clipes ou álbuns que em 15 dias se tornam ‘velhos’. Com a cultura do streaming muitas vezes um lançamento é visto como descartável e os artistas têm buscado estratégias para entender esse público que consome cada vez mais playlists e álbuns (EPs ou Mixtapes) mais curtos. Assim como os discos, resenhas tem uma vida útil cada vez menor”

conclui o jornalista Rafael Chiocarello.

Blogs e sites especializados ainda guardam um fluxo de trabalho e disparam gêneros que lembram a história do jornalismo: críticas, resenhas, reportagens, entrevistas. Quando analisamos a produção de conteúdo (jornalística ou não) em outros espaços da internet, como as redes sociais, outros gêneros saltam aos olhos.

Registros de eventos nos Stories, vídeos no YouTube de frente pra câmera, vídeos de reação a videoclipes, tudo isso surgiu nos últimos anos e têm mudado a forma como as pessoas acessam informações sobre música.

Ainda que os jornalistas precisem criar títulos interessantes e convidativos para levar o leitor ao seu site, isso não tem sido suficiente. Alguns acreditam que o consumo em pequenas porções define um conteúdo menor e pra consumo rápido, mas o podcast tem sido um dos gêneros mais consumidos nos últimos tempos, mostrando que ainda existem pessoas interessadas em conteúdo aprofundado sobre música.

Porém, os jornalistas alertam que exposição e audiência não significa relevância ou qualidade do conteúdo sobre música, seja ele jornalístico ou não.

“Por menos que eu, particularmente, goste da estética ‘pessoa olhando para a câmera em casa’ tão própria do YouTube, eu vejo sim como um formato novo, ou quase novo. Mas não faz com que ele seja necessariamente mais relevante em termos de qualidade de conteúdo do que um jornal impresso. Só tem mais exposição e mais gente vendo – o que pode ser um problema, porque nem sempre a pessoa com mais acesso tem o melhor conhecimento do tema, ou o melhor discurso”

critica André Felipe.

“É o desafio do jornalismo e do mercado musical em um geral [a função de] converter e fidelizar. A relevância, ao meu ver, se dá pela constância e poder de articulação. Ainda mais nestes tempos onde tudo se confunde com “influencers”. No fim, somos todos influencers, em maior ou menor escala. […]  Muitos pensam em números e retorno comercial mas se não fizer com amor, e não tiver uma identidade própria, não adianta nada!”

orienta Rafael.

PREVISÕES

Não há muito o que se prever quando as novas tecnologias se atualizam a todo instante e novas plataformas surgem a cada estação. Mas, há grandes possibilidades de explorar o que já se tem hoje como tendência de consumo de conteúdo. João Pinheiro (TMDQA) aposta nos Stories e nos podcasts que, na opinião dele, ainda ficarão mais populares no Brasil. Rafael (Hits Perdidos) orienta que é necessário profissionalização e aproximação do público: “Eu acredito muito na convergência. Tem que estar presente onde seu público está. Se é em vídeo, faça vídeos que conversem com a linguagem deste tipo de canal. Se é Podcast, vá atrás de profissionalizar, editar e entender o que funciona. Se é texto, fuja do release e dê sua cara”, sugere. Para André (Música Pavê, Monkeybuzz), o conteúdo precisa ser cada vez mais customizado.

“Eu penso que teremos ainda mais segmentação, ainda mais especialização, ainda mais conteúdo ‘customizadinho’ para o leitor/ouvinte/seguidor. Talvez eu esteja falando de algoritmos, talvez eu esteja só vislumbrando um amadurecimento e desenvolvimento ainda maior da área. Mas seria muito triste – distópico até – um futuro em que as pessoas se contentassem só com a informação chegando bruta até ela (tipo ‘saiu nova música de tal banda’) ao invés de um trabalho humano que fizesse pontes críticas e interpretativas para uma experiência de audição, ou consumo, mais aprofundada. Veremos”

conclui.

A impressão é de que o único retrato que podemos desenhar sobre jornalismo cultural na internet é um frame de uma transmissão ao vivo – quando percebemos, já é passado. Como último conselho, talvez, o jornalismo e o jornalista musical precisam entender e seguir o fluxo dos comportamentos do público e do mercado musical, sempre questionando tendências e o seu próprio labor.

#BÔNUS

LISTA DE CONTEÚDO E CANAIS DE JORNALISMO MUSICAL NA INTERNET (POR JOÃO PINHEIRO)

Instagram:

1) Tenho Mais discos que Amigos

2) Lúcio Ribeiro

3) Phelipe Cruz

Twitter:

1) @screamyell

2) @gguedes

3) @mdiscosqueamigos

Facebook:

1) Tenho Mais discos que Amigos

O que é esse "detalhe" aí no seu mapa, hein Lollapalooza Brasil? ??Garanta seu ingresso para curtir o festival já no próximo final de semana!

Posted by Tenho Mais Discos Que Amigos on Wednesday, April 3, 2019

2) Anderson Foca

Comentários aleatórios do twitter versão Tô em São Paulo.1. Os maravilhosos Los Hermanos lançaram uma não menos…

Posted by Anderson Foca on Tuesday, April 2, 2019

Youtube

1) Dosoltv

2) Alta Fidelidade

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(Jornalista)

Gustavo é jornalista e gerente de comunicação do selo Urtiga.

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