Novas tendências no consumo de música e o jornalismo cultural “tradicional”: o que mudou?

A imensa quantidade de conteúdo musical e as novas formas de consumir as notícias desafiam as mídias ‘tradicionais’ a se reinventarem.

Há décadas temos disponível todas as manhãs uma seleção de grandes manchetes nos jornais impressos, nos canais de TV e nas rádios. Por meio das emissoras e dos cadernos de cultura podemos conferir os destaques da música paraense e nacional e ter uma agenda de shows e festivais que vão ocorrer na cidade. Entretanto, com os meios digitais, o tempo entre nós e essas notícias é cada vez menor e não precisamos esperar a manhã seguinte para saber que o nosso artista preferido lançou um single, pois ele já será divulgado no seu perfil do Instagram, a música já estará disponível no Spotify e o videoclipe no Youtube.

Diante dessa realidade, como as mídias tradicionais estão reagindo? A dinâmica nas redações mudou? Os formatos estão sendo inovados? Ainda há prestígio em sair na capa do jornal? São vários os questionamentos que desafiam as mídias “tradicionais” atualmente. Para Marly Quadros, editora do caderno “Cultura” do jornal O Liberal, que já acumula 72 anos de circulação, as mudanças transformaram completamente o jornalismo que conhecia quando começou na profissão, e para ela os jornalistas de hoje tem perdas e ganhos com isso:

“As perdas vêm com a fragmentação da informação, que leva o profissional a aprofundar cada vez menos as notícias que cobre no dia a dia. Mas o jornalismo cultural acaba sendo uma exceção, porque o profissional que trabalha nos cadernos especializados tem a possibilidade não só de produzir matérias mais analíticas (embora isso não seja uma regra), como também de formar um banco de fontes importantes na área. Os ganhos vêm com a possibilidade de se produzir matérias multiplataformas.”

Marly conta que atualmente sua equipe do caderno de cultura produz tanto para o impresso, quanto para o portal O Liberal, e os repórteres começaram a produzir material audiovisual que será aproveitado nas duas plataformas e, em alguns casos, também na rádio Liberal. “Isso é um avanço muito importante, porque permite produzir um material mais completo, aproveitando ao máximo o entrevistado e, por conta do atrativo que vídeos e áudios têm, sobre o jovem leitor dos dias atuais”, conclui.

Piloto do libcult, um projeto audiovisual da editoria de cultura do jornal O Liberal.

Mesmo com o surgimento da TV, a rádio não sumiu, o mesmo aconteceu com os canais abertos em relação à ascensão dos canais fechados, estes que hoje perdem público para as plataformas de streaming e para o Youtube. No caso do jornal impresso, é fato que não tem como concorrer com a velocidade da web e talvez o caminho natural para enfrentar as mudanças seja a readaptação do seu papel para o público. É o que acredita Esperança Bessa, jornalista e editora do caderno “Você”, do jornal Diário do Pará, outro título com história na capital paraense:

“O impresso achava que o futuro do jornalismo eram os portais, mas hoje os portais já perderam público para as redes sociais, pois cada pessoa produz o seu conteúdo. Os jornais precisam entender o público que ainda os consome e estamos em um caminho de nos especializar, disponibilizando um debate mais ampliado, pois o factual já corre rápido nas redes sociais. As pessoas não compram o jornal para ver sua programação do final de semana, elas vão nos eventos do Facebook, então se o impresso se prender apenas ao factual ele sai perdendo”

Para Marly, não precisar competir com a velocidade das notícias é algo positivo e que beneficia a qualidade do jornal impresso:

“O prestígio do impresso segue o mesmo, principalmente por conta da onda de fake news que afeta as redes sociais e acaba chegando aos sites e portais, pois a necessidade de dar A notícia na frente faz muita gente não checar a informação, e o leitor acaba prejudicado. No impresso isso ocorre com menos frequência”

afirma, Marly.

Quando começou a carreira, Marly Quadros lembra o caderno de cultura do O Liberal tinha 12 páginas nos dias de semana e 24 páginas nos fins de semana, havendo muito mais espaço para matérias produzidas, com muitas fotos, colunas sociais, crônicas e sessões direcionadas. Por sua vez, Esperança Bessa lembra quando viajava para cobrir shows e grandes festivais para o jornal e o impresso era o veículo mais bem pago do grupo. Entretanto, engana-se quem pensa que o jornalismo cultural era glamourizado:

“Dentro das redações de impresso, que eram as redações mais desejadas na época, o jornalismo cultural era uma área considerada menor e não existia nenhum prestígio nisso. Os ‘melhores’ estagiários e jornalistas eram encaminhados para os cadernos de política, cidade e economia, e se você era trocado para essas áreas era como se estivesse sendo ‘promovido’”

relata Esperança.

Hoje, os jornalistas culturais precisam se contentar com as equipes reduzidas e com menos páginas no caderno, as viagens são quase inexistentes. Tendo em vista esse espaço cada vez menor e a dedicação de uma equipe menor, Esperança Bessa considera que, para o artista, a capa do caderno possui ainda mais relevância na carreira: “Mesmo com as mensurações de redes sociais, o clipping do impresso ainda conta muito na hora de prestar contas com um patrocinador, pois mostra que no meio da avalanche de informações ele foi um destaque”, defende a jornalista.

Fora da rota dos algoritmos, o jornalismo cultural impresso sobrevive da curadoria das editoras e repórteres, criando uma seleção importante, não para quem já conhece a cena, mas principalmente para quem precisa de indicações e estímulos para sair da zona de conforto musical. Mesmo com as equipes reduzidas, o jornalismo cultural paraense segue com a finalidade de provocar o público a consumir não apenas a música, mas também a informações e debates relacionados a esse universo.

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Isa é jornalista e gerente de distribuição do selo Urtiga.

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