A crise do jornalismo: um problema das empresas ou dos profissionais?

O Coceira inicia uma série de reportagens sobre a prática do jornalismo musical hoje em dia, em comemoração ao Dia do Jornalista, 7 de abril.

No final do século passado, o surgimento da internet iniciou uma série de mudanças sociais e de comportamentos, provocando crises em variados setores do mercado: e o consumo de informação não ficou de fora. A prática jornalística vem sendo repensada por estudiosos e por profissionais, ocasionado pelas demissões em massa em grandes impérios de comunicação, pela diminuição de vendas de jornais, o fechamento de revistas, entre diversos outros sintomas de que um tsunami veio mudar a lógica comercial do jornalismo.

Enquanto as empresas se esforçam para gerir os (grandes) ajustes necessários para continuar lucrando e sustentando diferentes publicações e canais de mídia, os profissionais, por outro lado, procuram alternativas às grandes corporações, que pouco têm contratado além de oferecer salários cada vez menores.

As questões que o Coceira se pergunta é: onde está o jornalismo cultural (e o musical) nesse cenário caótico e confuso? O que os estudiosos e profissionais do jornalismo voltado para a cultura têm percebido de mudanças e permanências na prática da produção de informação sobre arte? E o que jornalistas musicais e estudantes aspirantes à essa profissão prosperam para o futuro do jornalismo cultural?

“ESPECIAL JORNALISMO MUSICAL” é uma série de entrevistas e reportagens, em alusão ao Dia do Jornalista (7 de abril), onde vamos debater diferentes posicionamentos e visões sobre o jornalismo cultural e musical produzidos hoje em dia em Belém do Pará e, em maior escala, no Brasil, como forma de tentar listar possíveis direções sustentáveis para essa prática.

O QUE MUDOU

Nas duas últimas décadas, uma série de acontecimentos provocou diversas mudanças no jornalismo cultural. Isso ocasionou novas habilidades, novas formas de consumo de cultura através de mídias digitais, redes sociais, além de inserir um pensamento que definiu o início da crise para o jornalismo como um todo. Segundo o jornalista paulista, mestre em Comunicação Social com especialização em audiovisual e jornalismo cultural, Franthiesco Ballerini:

“A maior crise que o jornalismo viveu, e obviamente isso afeta o jornalismo cultural, é a ideia de que você não precisa mais pagar pra ter acesso a conteúdo jornalístico. O que é um grande equívoco porque o jornalismo é pago e ele é caro. Hoje eu sinto que o jornalismo cultural investe muito menos em grandes reportagens que custam dinheiro e tempo de repórter, e mais em agenda. Então talvez essa seja a principal mudança”, explica Franthiesco, autor do livro “Jornalismo Cultural no Século 21”, lançado pela “Summus Editorial”

Em entrevista ao Coceira, Franthiesco explica que a pulverização do consumo é uma grande marca dessas transformações no jornalismo. Se antes, havia um grande prestígio para cadernos de cultura de jornais, revistas de circulação nacional especializadas em cultura e música, hoje o público pode escolher seu site preferido, ou consumir crítica, opinião e notícias pelas redes sociais.

TECNOLOGIA

Podemos perceber a importância dos blogs e o surgimento de creators que influenciam diversas pessoas interessadas em música e cultura, produzindo conteúdo no YouTube, nos Stories do Instagram ou no Spotify, em podcasts; inclusive, grande parte desses produtores não têm formação em jornalismo, falta preenchida com habilidades em vídeo, edição de áudio e direção de arte, por exemplo. Porém, a grande maioria dos bloggers, vloggers ou digital influencers, investem seu tempo e não são remunerados pelo conteúdo que produzem, ou desenvolvem modelos de financiamento alternativos, quando não emprestam sua influência para marcas relacionadas à cultura e à música, como festivais.

Alguns estudiosos questionam a quem deve-se atribuir essa crise econômica do jornalismo: às empresas, que não entendem a nova lógica de produção e consumo de informações e cultura, ou aos jornalistas, que não se atualizam e perdem prestígio para youtubers sem nenhuma formação superior em jornalismo.

“Se um jornal vai mal por não ter mudado seu modelo de negócio – que por muito tempo vingou –, uma hora ele irá fazer reajustes. Esses reajustes são mais ou menos radicais, dependendo diretamente de como esse jornal ou veículo se comportou nesses mais de 15 anos de internet comercial no país. Agora, se juntarmos um modelo de negócio pra lá de tradicional com um medo irracional aos meios digitais, o resultado que conseguiremos é a demissão de dezenas de jornalistas. Se adicionarmos a tudo isso a falta de preparo de muitos jornalistas para com o ambiente digital, a crise passa dos jornais para os jornalistas.”

escreveu Cleyton Carlos Torres, jornalista e blogueiro no Mídia8, para o Observatório da Imprensa

Se tivermos contato com os relatórios que as empresas de mídias online, como Facebook, Twitter e Google, produzem sobre tendências de consumo de conteúdo online, e compararmos com o que as grandes empresas brasileiras de mídia têm feito na internet, encontramos um abismo entre a evolução tecnológica do marketing, por exemplo, e os poucos passos que o jornalismo deu na era digital. A Google prevê para este ano o crescimento do consumo de robôs de chats em redes sociais, vídeos online utilizados por emissoras de televisão, assim como a maior integração entre conteúdo online e offline e mais presença da realidade aumentada, como exemplos de tendências na internet. O jornalismo, por outro lado, ainda tenta aprimorar sua linguagem para a leitura em telas mobile e conteúdos cada vez mais curtos.

O portal do New York Times foi uma dos precursores ao modelo de assinatura em sites de notícias. Essa é uma das tendências em mídia em 2019, apontadas pelo site Meio e Mensagem.

FUTURO

Ano passado, a Google criou o “Google News Initiative”, um projeto com o objetivo de ajudar o jornalismo a se desenvolver na era digital. Pra isso acontecer, a empresa acredita que é necessário “elevar a qualidade do jornalismo, evoluir os modelos de negócio e acelerar a inovação tecnológica nas redações”, incentivando que os jornalistas desenvolvam novas habilidades, além da escrita.

“Hoje, acho que o jornalista cultural como um todo precisa ter habilidades em tecnologias. O bom jornalista cultural tem que não só saber escrever bem, mas saber tirar boas fotos, fazer vídeos, contar bem uma história não só em texto mas também em audiovisual, porque ele pode diversificar a forma como ele vai atingir o público. Porém o mais importante não é isso. O importante continua sendo ter um belíssimo repertório. Você não pode ser um jornalista cultural sem entender sobre história, filosofia, história da arte, sobre história política, ler tudo isso”

orienta Franthiesco

Junto com as habilidades, as mudanças também são propícias a novos empreendimentos de jornalismo, o que, para Franthiesco, sempre foi oportuno. Porém, ele analisa que a barreira ainda é econômica. “Não é pra se desanimar, mas tem que ter muito suor, muito esforço pra isso [empreender no jornalismo] gerar alguma coisa rentável depois. E muita persistência, não desistir na primeira, que é uma coisa muito comum dessa nova geração”, observa. Sem dúvida, há um novo mercado ansioso para novas possibilidades de consumo de jornalismo, inclusive o cultural e musical.

“Empreendedorismo, design, inovação, estatística, dados e programação são apenas alguns dos novos módulos pertencentes ao jornalismo moderno e que têm tudo para se aperfeiçoar, encontrar seu espaço e, como sempre, servir de base estrutural para a tomada de decisões de uma sociedade. Com o digital, o jornalismo redobra o seu papel de prestador de serviços, porém isso não pode ficar limitado a um modelo de negócio ou a profissionais que não adquirem novas visões.”

escreveu o jornalista Cleyton Carlos Torres, blogueiro no Mídia8, para o Observatório da Imprensa.

Problemas econômicos, de mudanças de paradigmas ou de consumo de conteúdo online, os desafios do jornalismo do século XXI, definitivamente, apenas começaram a ser descobertos. “As tecnologias são muito recentes, a internet não tem nem um milésimo de segundo de vida, se você pensar na história da humanidade”, analisa Franthiesco. Os resultados estão presentes, mas são difíceis de identificar, porque acompanham as transformações constantes do consumo na internet.

Enquanto isso, a gente segue a nossa busca por entender o que mudou e o que ainda continua relevante na produção de jornalismo musical e cultural no Brasil, em nossa série “ESPECIAL JORNALISMO MUSICAL”. Aguardem os próximos posts.

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(Jornalista)

Gustavo é jornalista e gerente de comunicação do selo Urtiga.

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