A viagem pelo tempo emocional do disco “El Problema de la Forma”, da Hermanos Láser (URU)

O grupo ainda acredita no poder de um álbum que tenha conceito da primeira à última faixa.

Fui duplamente convencido de que “Hermanos Láser” é uma das bandas mais interessantes que chegou até mim nos últimos dias: pelo que diz e pela forma como soa. À primeira audição, o preciosismo da produção musical do último disco do grupo uruguaio de folk e pop rock, “El Problema de la Forma”, foi o primeiro argumento que me levou do início até a décima faixa do disco, como num sopro, num devaneio de uma viagem de ônibus onde o fim do emaranhado de pensamentos só se encerra quando você percebe que chegou ao seu destino.

Esse preciosismo é anunciado logo na segunda e ótima faixa “Tormentas”: “Sabe, meu pai disse: / Faça o que quiser, mas faça bem”. Martín Cáceres, Sebastián Cáceres, Flavio Galmarini, Gastón Solari, Ignacio Vecino e Francisco Cunha, que formam a banda, ouviram bem o recado e fizeram um álbum admirável, bem escrito, com produção afiada e inspirados no indie, com um pé no pop e muitas referências do folk do Uruguai. Foi justamente a poesia profunda, apesar de simples, que me instigou a tentar entender o processo de composição e produção do “El Problema de la Forma”.

O violonista Sebastian Cáceres, que também toca gaita e outros instrumentos nos shows, conversou com o COCEIRA sobre o álbum, o que conseguiu explicar a maturidade da sonoridade dos “Láser”. De início, eu queria entender como o disco consegue trilhar um caminho usado para construir um som pop, mas sem perder os tons de uma peça artística, com sentimentos reais e que garantem o impacto do contato do ouvinte com a música.

“A verdade é que fazemos música para agradar a nós mesmos, nunca pensando em como ela será recebida por outras pessoas. Achamos que esta é a coisa mais honesta que podemos oferecer aos nossos ouvintes. Somos bastante perfeccionistas com as composições (talvez patologicamente obsessivos). Mas, tendo tanta música no mundo, achamos que se vamos lançar mais uma peça na mesa, isso deve ser realmente significativo. Deve ter o nosso melhor esforço. Nós não temos o dom da genialidade, mas a paciência e o trabalho duro.”

explica, sem rodeios ou frases de efeito, Sebastián Cáceres.

A banda nasceu em 2011, lançou disco homônimo em 2014, que foi considerado um dos melhores do ano pela imprensa local, e o “El Problema de la Forma” em setembro de 2018, sendo um dos nomes mais comentados da cena indie de Montevidéu. Aqui no Brasil, são distribuídos pelo selo Ímã Records. Em seu país, já ganharam prêmios e dividiram o plateia com Pixies, Vampire Weekend e Johnny Marr, no Festival RockFall de 2014, além de integrarem a programação de diversos outros festivais.

“El Problema de la Forma” é disco sentimental que cultiva uma melancolia sem clichês e sem beirar a depressão. Pelo contrário, é lúcido, questionador e inspira um pontapé inicial nos dias em que a cama te prende e que levantar não é opção. Filosofa sobre o tempo, o espaço, os lugares e as pessoas, sobre quem somos e, principalmente, o que queremos e pra onde vamos. “Talvez neste álbum haja uma exploração do tempo. Mas não o ‘tempo do relógio’, e sim o tempo emocional, onde às vezes um segundo se passa tão lentamente quanto uma semana ou um ano escorrendo por seus dedos sem perceber”, explica Sebastián.

Na faixa “Selva”, Hermanos Láser cantam “Eu sou um rio / um rio parado”. De que nos serve um rio sem a correnteza? Perde sua beleza, sua função. Já na música seguinte, “Panorámica”, rebatem com “Se nada me sustentar / nem mesmo o passado, eu prefiro / então eu prefiro a velocidade”. Claramente duas condições que se completam: o desespero da inércia e a vontade de prosseguir, deixando para trás o que já não nos sustenta, não nos serve.

Em diversas canções, eles retomam à discussão proposta pelo título do álbum: a forma. Não é um tema novo nas artes, mas sim um suplício para todo criador de peças artísticas — seja ele de qualquer linguagem — a necessidade de se encaixar, se moldar ou pertencer a um estilo, cena, movimento. Talvez esse seja um dos questionamentos que a banda faz sobre a “forma”. Em “Mercurio”, música que já encaminha o ouvinte para o fim do álbum, eles anunciam a derrota em tentar entender esse problema. “Nada é impossível, / minha pele está aberta / nada é impossível. /Se nada é impossível, eu sou / não encontro a forma.”

Parece curioso que, em meio aos lançamentos que entopem playlists semana após semana, ainda existam artistas preocupados na construção de uma peça artística com começo, meio e fim, uma história e um conceito que são entregues para o público.

“No mundo de hoje, existem muitas distrações. Nossa capacidade de prestar atenção às coisas é passageira. Discursos se tornam cada vez mais “fluorescentes” para capturar nossa atenção uma fração de segundo… Mas, as mesmas ferramentas tecnológicas que causam isso são aquelas que permitem que uma música viaje sem fronteiras para qualquer canto do mundo. Portanto, não sentimos isso como uma ameaça, mas como um desafio. Para “El Problema de la Forma” voltamos a trabalhar no disco como uma unidade de significado que dá contexto às músicas. E toda vez que alguém toma o tempo para ouvir e fazer a viagem completa, para nós é uma imensa alegria”

explica Sebastián.

Qual seria o papel de um artista senão criar as ferramentas necessárias para gerar reflexão, muito diferente de discursar sobre uma opinião pronta e acabada? Deixo na mão dos ouvintes a missão de fazer a viagem completa e, caso consiga, encontrar a forma. Na minha viagem, “Cárceres”, a faixa final, traz a resposta: “Estamos esperando / que o céu se abra ao meio. / Estamos tentando nos perder. / As formas das sombras / os sons nos guiam. /Estamos tentando nos perder / de um momento para outro”.

OUÇA O DISCO COMPLETO

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(Jornalista)

Gustavo é jornalista e gerente de comunicação do selo Urtiga.

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