Os estigmas enfrentados por mulheres instrumentistas no mercado musical brasileiro

Renata Beckman, Larissa Medeiros, Sofia Freire e Alessandra Duarte (Ema Stoned) compartilham suas experiências como mulheres que tocam instrumentos.

Em 2017 o ex-Titã, Paulo Miklos decidiu montar uma banda inteiramente formada por mulheres para o seu mais recente álbum solo. O cantor fez audição com diversas instrumentistas, mas depois declarou que o nível das mulheres estava muito abaixo do esperado e acabou formando a banda apenas com homens.

Quem conta esse caso no podcast VFSM é a Larissa Conforto, baterista da banda Ventre, indicada ao WME Awards 2017, premiada como melhor instrumentista pelo Riff e uma das instrumentistas avaliadas por Paulo Miklos, e recusada por ele, para a banda. Outra situação contada por Larissa aconteceu no seu projeto “Bateria intuitiva para mulheres“, em que dá aulas exclusivamente para turmas formadas por meninas; em uma delas, um rapaz se inscreveu. A baterista reparou que algumas meninas tinham vergonha de tentar o exercício na frente da turma e errar, e pediam para Larissa sair da sala enquanto elas treinavam. Por outro lado, o garoto, nenhum pouco intimidado, já praticava o exercício enquanto Larissa ainda dava as orientações.

Ainda há um grande estigma em cima das mulheres instrumentistas e poucas são lembradas e mencionadas quando se fala na história da música brasileira. Inezita Barroso, Chiquinha Gozaga, Dona Edith do Prato, Nilze Carvalho, Luciana Rabello… quem? Ainda é questionada a capacidade das instrumentistas e o papel comumente reservado para as mulheres na música é o da intérprete. Segundo o relatório “Por elas que fazem a música”, da União Brasileira de Compositores (UBC), o recebimento como intérprete tem o dobro da importância econômica para mulheres do que para homens.

Dependendo do ambiente onde elas cresceram, das pessoas que conheceram e os estímulos que tiveram, as instrumentistas encontram menos ou mais barreiras na iniciação e continuação nesse tipo de carreira musical. Por isso, decidimos conversar com algumas mulheres reconhecidas pela sua experiência com os mais diversos instrumentos, para entender como foram os primeiros contatos com a música e se houve (ou não) barreiras nesse caminho.

RENATA BECKMAN (GUITARRADA DAS MANAS)

Foto: Vitória Leona

Instrumentos: Guitarra, banjo, cavaco, violão e contrabaixo

Conhecida pela forte presença na guitarrada paraense, Renata Beckman começou a mexer com instrumentos na casa de Mosqueiro do tio, onde os primos montavam os equipamentos pra ensaiar alguns pagodes. Porém, a guitarrista não teve muito incentivo para se aproximar da música

Apenas aos 14 anos, depois de insistir muito com a mãe, Renata ganhou um violão e começou a ter aulas. Ali no início não tinha muita clareza sobre as barreiras de seguir uma carreira musical pois tudo ainda era um hobby. Mas quando começou a tocar profissionalmente, percebeu que não seria tão fácil, e precisou ir atrás de muitos aprendizados sozinha, além de ter que enfrentar a subestima de alguns homens:

“Depois que comecei profissionalmente fui enxergar como é difícil ser mulher e estar tocando, porque o meio musical ainda é muito impregnado pelo comportamento dos homens, e quando escolhi tocar guitarrada isso ficou muito mais evidente. O que ocorre com mais frequência é eu ser subestimada em relação ao meu conhecimento sobre música e sobre equipamentos em cima dos palcos, e frequentemente os caras questionam se eu sei o que estou fazendo e insistem em querer me ensinar.”

Renata Bechman

Renata sente que as mulheres têm um papel muito designado na música para as posições de cantora e intérprete e fugir disso incomoda os homens.

“A gente sente nos comentários e nos olhares que muitos homens acham que estamos em uma rivalidade com eles. Isso tem sido colocado em discussão e hoje consigo ter parceiros que somam comigo”

afirma a instrumentista.

Além de fazer parte da banda de grandes artistas paraenses, como Lucas Estrela e Bruno B.O., Renata Beckman divide o palco com a musicista Beá Santos no duo “Guitarrada das Manas”, sendo uma das poucas mulheres a se aventurar em um gênero ainda tão masculino e inspirando outras mulheres:

“Fico muito feliz em poder inspirar alguém e ser reconhecida como uma instrumentista da cena com as minhas ideias e com aquilo que eu acredito. Estando nessa posição, sempre reflito como posso ajudar outras manas que queiram seguir esse caminho. Espero que muito mais mulheres cheguem aqui e possam ir até mais longe do que eu, porque a gente sobe e vai puxando outras manas.”

conclui Renata.

ALESSANDRA DUARTE (EMA STONED)

Foto: Vitória Leona

Instrumentos: Guitarra, violão, piano e flauta transversal

Achando que os sons vinham das cores das teclas do xilofones de brinquedo, Alessandra Duarte, guitarrista da banda instrumental Ema Stoned, teve seu primeiro contato com os instrumentos ainda criança. Aos 7 anos ganhou seu primeiro instrumento, uma flauta transversal, para tocar na banda da escola, tendo a oportunidade de aprender música em um ambiente coletivo.

Sempre incentivada pelos pais, a artista começou as aulas de piano e, juntamente com o irmão que também se empolgou com os instrumentos, começaram a construir uma casa mais musical. Alessandra foi acostumada com a liberdade de poder fazer o que fazia sentido para ela, mesmo que não correspondesse com o que a sociedade esperava para o seu gênero, como jogar bola, usar as roupas do irmão e seguir sua carreira como instrumentista.

Não tendo obstáculos por ser mulher na sua iniciação, mas esbarrando nos estigmas das mulheres na música, Alessandra frequentemente é indagada se é a cantora da banda. Além disso, ela ressalta a competição entre mulheres nesse meio:

“Acho que o mais triste é quando você acaba encontrando mulheres que entram em competição umas com as outras por causa de um machismo enraizado, um machismo inconsciente que nem elas mesmo percebem que carregam dentro de si. Quando isso vem de um homem não é surpreendente, mas quando vem de uma mulher é um choque e requer muito cuidado, escuta e compreensão para trazer esse sexismo à tona e tentar desconstruí-lo. Em ‘O feminismo é para Todo Mundo’ bell hooks diz que as feministas são construídas, não nascem feministas. Ela descreve: ‘antes que as mulheres pudessem mudar o patriarcado, era necessário mudar a nós mesmas, criando consciência.’”

Alessandra Duarte (Ema Stoned)

Atualmente se reconhecendo como musicista, Alessandra fica especialmente realizada quando vê que isso também influencia uma nova geração de meninas que decidem tocar instrumentos musicais. “Espero que tenhamos cada vez mais instrumentistas”, deseja.

LARISSA MEDEIROS (BANDO MASTODONTES)

Foto: Treme Filmes

Instrumentos: Violão e percussão (tambores de mão, curimbó, maraca, agbê, milheiro, ganzá, triângulo, berimbau, caxixi, pandeiro, agogô e coco)

Integrante do Bando Mastodontes desde 2017, Larissa Medeiros é multi instrumentista e tem como protagonismo o trabalho musical com a percussão. A artista considera que todas as pessoas têm uma iniciação musical na infância, seja cantando, dançando ou batucando, mas suas primeiras lembranças são das rodas de samba nas festividades da família em que, por volta dos 7 anos, teve seus primeiros contatos com instrumentos, em especial o Tantan (tipo de tambor), que ela pegava para tocar mesmo sendo menor que ele.

Sua relação com a percussão ficou mais séria quando começou a praticar capoeira aos 14 anos. Seu maior vínculo era com a musicalidade e foi onde aprendeu a tocar berimbau, atabaque, pandeiro e agogô. Um ano depois, aos 15, ganhou de sua avó um violão, mas ainda não sentia um muito incentivo para se desenvolver na música com ele.

Foi com a sua entrada no Bando Mastodontes que sentiu o maior apoio para explorar o universo da percussão. Os instrumentos que antes eram apenas enfeites em sua casa foram trazidos para o processo artístico do grupo e Larissa passou a se dedicar e estudar a sua musicalidade percussiva.

A baixa autoestima e falta de confiança de assumir uma posição que é tradicionalmente dos homens costuma ser intimidadora e um fenômeno que persegue muitas mulheres, conhecido como síndrome da impostora. Larissa viveu isso quando, mais nova, começou a podar sua musicalidade ao se sentir menos talentosa perto dos homens com quem se relacionava, que geralmente já eram envolvidos com a música:

“Eram homens que já cantavam e tocavam e eu considerava que tinham um repertório melhor do que o meu, sabiam usar os instrumentos melhor do que eu, e assim fui abandonando o violão. Eu não sentia o incentivo ali pra tocar, coloquei a minha musicalidade para debaixo do tapete e passei a apoiar a carreira deles.”

Atualmente, com apoio do seu companheiro, dos amigos e do seu mestre de percussão, Flávio Gama, Larissa sustenta um talento que negligenciou por tanto tempo:

“Às vezes a repressão das mulheres nos espaços não é direta e vem por outros mecanismos que tem a ver com a construção da nossa subjetividade e vamos aprendendo a nos colocar em segundo plano e no constituindo como um sujeito incapaz. Por muito tempo eu achei que a música não era pra mim e que não era pra eu ser artista, era apenas um amadorismo meu. Hoje eu me sinto forte por tocar tambor, boto minha força ali e me sinto liberta por poder me afirmar nesse lugar.”

SOFIA FREIRE (PE)

Foto: Vitória Leona

Instrumentos: Pianista, performa seu show no formato “banda-de-uma-mulher-só”, tocando piano, sintetizadores, disparando samples, cantando e criando loops de instrumentos e de voz.

A pernambucana Sofia Freire teve os primeiros contatos com os instrumentos ao brincar com um teclado Casio de sua irmã. Ainda como brincadeira, a artista começou a compor no teclado, inicialmente imitando seu pai e o amigo, Antônio Carlos Nóbrega, que costumavam fazer música na sala.

Com o tempo, os teclados deixaram de ser brinquedos para se tornar algo sério e, com incentivo do pai, Sofia começou as aulas de piano, e com os incentivos da irmã descobriu que também tinha talento para o canto e harmonização, sendo uma atividade que gostavam de fazer juntas. Crescendo em um ambiente artístico e desde cedo frequentamos saraus, shows, teatros, o acesso à arte sempre fez parte de sua educação.

Enquanto aprendia a dominar os instrumentos, a artista não teve muitos empecilhos, talvez pelo fato de que todos seus professores de música haviam sido mulheres. Entretanto, quando começou a tocar profissionalmente, Sofia começou a perceber algumas barreiras, principalmente com homens técnicos de som ao vivo e de estúdio:

“Tive e tenho problemas principalmente com homens, por não acharem que eu domino meu instrumento e, especialmente, meus equipamentos. Muitos duvidam da minha capacidade por eu ser jovem, além de mulher, e tenho certeza que se eles se deparassem com um homem da minha idade fazendo o que faço sozinha no palco, essa dúvida não existiria da mesma forma.”

Na visão de Sofia, há um movimento cada vez maior de mulheres que estão se unindo e desmistificando a competição entre mulheres:

“[Elas estão] se colocando como instrumentistas, produtoras, profissionais competentes que estão conquistando espaço e exigindo respeito, e por isso não me sinto só como me sentia há uns tempos atrás, mas sim encorajada.”.

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Isa é jornalista e gerente de distribuição do selo Urtiga.

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