O primeiro ano do Circuito Mangueirosa resgatou o Carnaval paraense e agora não tem mais volta

Entre os dias 02 e 05 de março, o Circuito Mangueirosa arrastou aproximadamente 30 mil foliões para as ruas de Belém, realizando o maior Carnaval de rua visto em anos na cidade.

Foto: Treme Filmes

Durante 04 dias, Belém se deparou com milhares de pessoas nas ruas se divertindo em um Carnaval (gratuito) que crescia a cada dia no complexo Ver-o-Rio. Nenhuma ocorrência de furto, roubo ou qualquer tipo de violência foi registrada pela segurança presente. Nos palcos, apenas artistas paraenses e no chão um público com uma rica diversidade, em todos os aspectos. O Carnaval da cidade voltou a respirar.

Foram dias de folia e de muita cultura paraense, mas algo que marcou a imagem do Circuito Mangueirosa foi a paz e respeito às diferenças prevalecendo em um evento aberto, gratuito e com a presença dos mais diversos públicos.

Esse encantamento com algo tão básico, como o respeito, talvez seja o reflexo de uma intimidação por declarações e comportamentos conservadores que são comumente disseminados nas redes sociais, afinal, as notícias e opiniões boas não viralizam tanto quanto as ruins. Sair dessa bolha tóxica e se deparar com milhares de pessoas nas ruas convivendo em paz e se expressando livremente sem julgamentos ou medo, acaba se tornando algo fascinante hoje em dia.

Quem ainda pensa que o Carnaval foi um período escapista e alienado, estava bem enganado. Os acontecimentos recentes da política brasileira deram o tema para diversas fantasias e marchinhas pelo país, e em Belém não foi diferente. Um dos grandes sucessos foi a fantasia de Barbie Fascista e de “Coxinha”, fantasias que se tornavam ainda mais contextualizadas diante das incontáveis vezes em que o público puxava frases de protesto ou a marchinha irônica “Doutor, eu não me engano, o Bolsonaro é miliciano”. Acho oportuno ressaltar aqui que eram aproximadamente 30 mil foliões acompanhando o Circuito Mangueirosa durante os 04 dias.

Foto: Treme Filmes

É importante ressaltar que o Circuito Mangueirosa surgiu a partir da iniciativa de seis produtoras (Bando Mastodontes, Filhos de Glande, Lambateria, Meachuta, Melé e Se Rasgum), tendo como o maior objetivo resgatar o Carnaval de rua de Belém e torná-lo acessível para todos os públicos, incluindo idosos e crianças. Um ponto forte do evento foi a valorização e defesa da cultura paraense, fazendo assim uma programação 100% formada por artistas paraenses que, em sua maioria, possuíam o próprio repertório autoral.

Inicialmente, a produção da Mangueirosa tinha a expectativa de receber 05 mil pessoas por dia, mas no último bloco já eram 10 mil brincantes no complexo do Ver-o-rio. Ver esse público crescendo ali de trás do palco era assustadoramente fascinante, e assistir as imagens feitas com o drone deu uma balançada nas emoções dos produtores. Eles haviam criado algo imenso e Belém precisava disso.

DIA 1 – BLOCO LAMBATERIA

A programação estava prevista para começar 12h, e de fato tudo estava preparado para começar, mas faltava algo: o público. Talvez a chuvinha no início da tarde seguida de um sol a pino tenha intimidado os primeiros foliões da Mangueirosa, mas foi tudo uma questão de tempo. Por volta das 15h começaram a chegar diversos grupos de amigos e famílias e assim começou oficialmente o Carnaval de 2019 em Belém.   

Quem abriu a programação do Circuito Mangueirosa foi o Bloco da Lambateria, uma famosa festa de Belém que ocorre há quase três anos mas pela primeira vez colocou seu bloco na rua. O palco do complexo do Ver-o-Rio foi comandado pelo cantor e compositor Félix Robatto, que trouxe o seu repertório autoral, fruto de dois álbuns. E para embalar um pôr-do-sol alaranjado que acontecia ali na beira do rio, Félix e sua banda engataram uma sequencia de bregas marcantes, sendo impossível deixar de fora o clássico “Ao Pôr-do-Sol” de Teddy Max. Para entrar no clima do cortejo, a banda tocou uma série de famosas marchinhas de Carnaval, “corrigidas” quando necessário pelo cantor, como “Olha a cabeleira do Zezé, será que ele é? Deixa o cabelo dele!”.

O cortejo foi puxado pelo grupo de carimbó Sancari, trazendo para cima do trio ritmos paraenses que muitas vezes são deixados de lado nesse período do ano.  A festa continuou no Porto Music com um show da banda Xeiro Verde para uma casa lotada e eufórica com o mais novo carnaval paraense.

DIA 2 – BLOCO MANADA

Foto: Treme Filmes

Com o sucesso do primeiro dia, o buzz em cima do Circuito Mangueirosa já estava instalado e os brincantes chegaram mais cedo, mesmo com a chuva que ameaçava cair a qualquer momento. Abrindo o Bloco Manada, o grupo de ijexá Ita Lemi Sinavuru, trouxe para a rua as energias dos Orixás, acompanhadas por brincantes que puderam expressar sua religiosidade ou apenas apreciavam com respeito aquele movimento de liberdade.

Os anfitriões do bloco, Bando Mastodontes, são conhecidos por fazer shows com uma energia catártica, mesmo em espaços pequenos, então imagina o que aconteceu nesse dia, quando eles se apresentaram para aproximadamente 6 mil pessoas. Esse foi um dos shows mais politicamente críticos da programação, o que já percebíamos ao ver os integrantes subindo no palco vestidos de barbies fascistas e “coxinhas”. Em determinado momento, o Bando interrompeu a sequência de músicas autorais e soltou em alto e bom som um trecho do áudio comprometedor em que Jair Bolsonaro conversa com o ex-Secretário Geral da Presidência, Gustavo Bebbiano. Enquanto o áudio rodava, o público gritava frases de protesto e os integrantes trocaram o figurino para roupas vermelhas para “mudar isso daí, tá ok?”.

Mesmo embaixo de uma chuva torrencial, um público pulsante acompanhou o show até o fim, passando por momentos de euforia e até mesmo emocionantes com a banda tocando a música “Teodoro”. O show teve um intervalo pois o novo “palco” seria o trio elétrico. O cortejo foi puxado pelo Bando Mastodontes e foi acompanhado por um grupo de percussão especial, pois era formado por brincantes que foram incentivados pelas redes sociais a levar seus instrumentos e somar no som do trio.

Chegando ao Porto Music, a festa indoor contou com a apresentação do grupo Na Cuíra Tropikal, união das bandas Na Cuíra para Dançar e Farofa Tropikal, trazendo músicas autorais e uma seleção de bregas nostálgicos. Infelizmente, a festa precisou acabar mais cedo pois a Polícia Civil advertiu que era domingo e já havia passado de meia noite, o que parece ser um problema mesmo sendo Carnaval e não tendo nenhuma residência nas proximidades.

DIA 3 – BLOCO LUCHA LIBRE

Foto: Treme Filmes

A união do Festival Se Rasgum com a produtora Meachuta fez do Bloco Lucha Libre uma imensa festa a céu aberto. Neste dia, o Circuito Mangueirosa já era o destino certo de milhares de pessoas que permaneceram em Belém no feriado. A programação iniciou mais cedo com a banda do Bloco Rebuceteio, trazendo músicas autorais e ativistas. Em seguida a Big Band DBL reuniu grandes nomes da música paraense para animar o público com um repertório que passeou por grandes hits da música paraense, nacional e até mesmo internacional, com versões carnavalescas de Backstreet Boys e Spice Girls.

Após o show no complexo do Ver-o-rio, o público se encaminhou para a concentração do trio elétrico, onde estavam a postos a Bateria da Bole-Bole e um duelo de DJ set de Mau Vianna e Lucas Estrela, prontos para fazer o cortejo mais dançante do Circuito. Chegando no Porto Music, a festa seguiu com a casa lotada pulsando ao som dos duelos de DJ’s até às 04h da manhã, compensando a interrupção da festa do bloco anterior. Como nesta noite não havia banda, as atrações principais, além dos DJs, foram os próprios foliões que fizeram do palco uma extensão da pista de dança.

DIA 4 – BLOCO FILHOS DE GLANDE

Foto: Acervo Juliana Sinimbú

Um misto de comemoração pelo grande Carnaval que Belém ganhou e um saudosismo antecipado por ser o último dia do circuito foram os sentimentos que marcaram o tradicional Bloco Filhos de Glande. Com o público presente desde cedo no Complexo do Ver-o-rio, ávidos para aproveitar todas as últimas horas de folia e, por isso, a programação iniciou com performances animadas das Drags do coletivo NoiteSuja.

Em seguida, a Orquestra Carnafônica do Filhos de Glande foi comandada pela cantora e compositora Juliana Sinimbú, com participações de Liège e Renata Del Pinho. Foram horas de show com clássicos do Carnaval paraense, mas também dos mais diversos carnavais brasileiros. Um dos momentos mais emblemáticos e que (de acordo com os comentários nas redes sociais) marcou o imaginário do público desse dia foi quando a banda tocava a música “Eva” e a chuva torrencial que caia só fez os foliões cantarem e pularem ainda mais alto. Ao final do show, a famosa “Cobra Glande” guiou os brincantes do palco do Ver-o-Rio até a concentração do cortejo.

Novamente, a Bateria da Bole-Bole estava no trio, mas dessa vez seria acompanhada pelos vocais de Juliana Sinimbú. Uma multidão de aproximadamente 8 mil pessoas seguiu o cortejo em direção ao Porto Music.

A festa indoor, completamente lotada, ferveu com o show da banda Lauvaite Penoso e participações especiais das cantoras Liège e Sammliz. O repertório, além de contar com músicas autorais e versões de BaianaSystem e Nação Zumbi, se dedicou às músicas de Caetano Veloso, o artista homenageado pelo bloco esse ano.

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Isa é jornalista e gerente de distribuição do selo Urtiga.

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