Marisa Brito e a revolução das mulheres compositoras

Diversas artistas estão fazendo grande revolução com o simples ato de cantar suas próprias composições.

Marisa Brito. Foto: Fernanda Brito Gaia.
Cantora que compõe, Marisa Brito se une à outras mulheres compositoras para contar histórias sob um novo viés. Foto: Fernanda Brito Gaia 

Cada vez mais mulheres estão se sentindo encorajadas a lançar trabalhos musicais em que elas mesmas assumem o papel de cantora, manager, compositora e chefe de todo o processo de construção do som. Em qualquer dos estilos, o espaço de ocupação feminina se expandiu muito além do papel da diva ou da intérprete.

O trabalho solo da cantora e compositora Marisa Brito nasceu de um processo de descobrir multi funções que ela nunca tinha desenvolvido, apesar de uma longa carreira de 20 anos na música. E ela é só um exemplo dessa revolução que as mulheres estão fazendo no campo da cultura.

O universo feminino, seus problemas, dramas, desejos e desgostos, sempre foi reprimido pela sociedade machista, e nas artes isso não é diferente. Ainda que existam fortes personagens femininas na literatura de José de Alencar e de Nelson Rodrigues, ou na música de Chico Buarque, todas as mulheres são retratadas a partir de uma visão masculina.

Colocar a voz no mundo e expor suas ideias têm sido um ato libertador para diversas artistas que necessitam falar do que sentem e de tudo que fazem delas protagonistas de suas próprias histórias. Na música brasileira contemporânea existem vários exemplos, como a Karol Conká, Larissa Luz, o grupo Rimas e Melodias, Letrux, entre muitas outras.

Marisa Brito para a revista Veja. Foto: Tarso Sarraf

“Quando consegui compor e finalmente gostar de uma criação minha foi como um desabrochar. Mesmo trabalhando com música e estudando seriamente desde os 15 anos, só 10 anos depois eu comecei a acreditar que eu podia tocar um instrumento e levei 13 anos pra acreditar que eu era capaz de compor” ,

declara Marisa Brito, que durante mais de uma década foi vocalista da banda paraense “A Euterpia” e em 2017 lançou trabalho solo, e homônimo, em que é senhora de todos o processos artísticos e decisórios, e coloca seus sentimentos em canções que sempre têm visões femininas sobre o mundo que a cerca. Um desses exemplos é a música “Por Trás do Desenho”, composta em parceria de outra artista paraense, Ana Clara, e que fala de amor e desejo de uma mulher por um homem. Outra, a música “Coração na Boca”, composta por Marisa e seu maior hit, mostrando que as mulheres têm um jeito verdadeiro e particular de falar de si.

“Não tem como ser mulher e passar ilesa por essa sociedade. Por isso, a troca é muito importante e nos fortalece. Tem assuntos que só uma mulher conseguirá entender a outra, por isso eu amo compor em parceria de mulheres. Tenho canções com muitas mulheres que amo e admiro e espero que muitas outras venham a surgir. Existe um sentimento de irmandade e de empatia no meio disso tudo, pois sabemos que, de alguma forma, todas já passamos por questões parecidas. Claro que também haverá diferenças, mas compreender privilégios e respeitar o espaço e a fala uma da outra é fundamental”,

argumenta Marisa, que enfrentou dificuldades em lançar trabalho solo, por conta de uma insegurança que também vinha da pressão social por ser uma mulher no controle total de um trabalho.

Se por um lado a insegurança foi um empecilho, hoje é um combustível para impulsionar seu trabalho como cantora, compositora e musicista, e fazer trocas com outras compositoras, incentivando mais mulheres e eventos que impulsionam o trabalho feminino na música. “Até hoje tenho várias inseguranças, mas estou lutando contra elas todos os dias. Por isso, meu trabalho fala tanto de libertação e coragem.

“Quando canto minhas músicas estou falando sobre auto aceitação, sobre não ter mais medo de mostrar o que vim fazer aqui nesse mundo, mesmo estando sujeita a críticas. Hoje sou infinitamente mais feliz e completa por cantar minhas composições. Eu acho fundamental que haja cada vez mais espaço para mulheres compositoras, pois temos muito para contribuir e acrescentar artisticamente. E iniciativas como Festival Sonora, Women’s Music Event , blogs especializados no tema, etc., são imprescindíveis para continuarmos firmando nosso espaço na música, bem como a união de forças entre mulheres no mercado musical”, finaliza a artista.

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(Jornalista)

Gustavo é jornalista e gerente de comunicação do selo Urtiga.

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