FAIXA A FAIXA: as histórias por trás do disco "De outro Lugar" da Joana Marte

O primeiro álbum da “Joana Marte” traz uma riqueza de detalhes na produção que impressiona. Aqui tem um pouco dessa história, narrada pelo frontman e produtor musical da banda, Rubens Guilhon.

Lançado em junho de 2018, o disco da Joana Marte, “De outro Lugar”, é um dos mais aclamados do ano em Belém do Pará, com registro de músicas que já vêm sendo tocadas pela banda há algum tempo, de forma extensiva, na cidade. 

O Rubens Guilhon, vocalista, compositor, guitarrista e o produtor musical do disco, conta algumas histórias de cada faixa que integra o álbum de 8 músicas, inspiradas em Tame Impala, Pink Floid, O Terno e Mutantes, só pra citar alguns dos nomes de referência do grupo.

1 – Pobre Menino

Essa é a composição mais antiga do disco. Inicialmente tive a ideia de focar em grooves de tom e surdo em 3/4,  pra acompanhar, na maior parte do tempo, palhetadas em cordas soltas na guitarra. Porém, na versão final, escolhemos grooves mais retos na batera e deixamos a maior parte da música assim.  Eu estava numa vibe mais groovada quando decidi essa versão final. Foi a música que mais teve versões até chegar onde está. A letra fala sobre essa falsa democracia em que vivemos. Sobre como tentam nos dar algo que parece o melhor caminho, mas nunca é, de que forma nos atinge, essa situação.

2 – Inimigos

É uma canção que tem um arranjo tenso, eu diria. Foi proposital. É uma música que representa bastante a vibe da banda. Em compasso ímpar, brincamos com alguns pequenos riffs de synthbass, e com entradas fortes cheias de fuzz, numa pegada até meio opera rock. Em inimigos, um riff de baixo executado em pobre menino, se repete num momento da música, dando uma ideia de que elas se alinham em arranjo e letra. O solo final era sempre improviso e no meio dessas doidices que eu tocava, acabou rolando um tema sem querer e aí eu só fiz repeti-lo mais umas vezes. A música tem bastante guitarra e algumas percussões eletrônicas, uma mistura que é lindeza, facilmente.

3 – De Ré

Uma grande mistura de várias referências, mas todas na mesma pegada. Escolhi por pouca letra pra poder viajar mais nos instrumentos. Ela foi criada a partir do riff principal de guitarra, que é dropado pra Ré e aí o resto foi fluindo em ensaios. Perto da gravação final da música, tive a ideia de convidar alguém que tivesse uma voz mais rasgada e por isso a participação do grande Renan Chady. Queria mais agressividade na sonoridade dela.

4 – Novo Lar (Janela)

A composição mais nova do disco. Possui uma grande carga de sentimentos. A letra fala sobre uma possível presença do meu falecido pai, pós-morte, onde na verdade é só meu desejo de encontrá-lo a partir de lembranças sobre acontecimentos que vivemos juntos. Acho que foi a canção que levou menos tempo pra ser feita. Eu acordei com ela na cabeça, peguei o violão e compus. Na hora de passar pra banda, foi tudo tão natural, que ela saiu praticamente pronta pra gravar sem muitas mudanças.

5 – Retrato de Nós

Essa canção já teve outra letra e também teve algumas outras versões. Um detalhe interessante é que mesmo sendo uma música “reta”, o primeiro refrão entra no contratempo, há também umas brincadeiras harmônicas com dissonância, que aconteceram naturalmente enquanto eu solfejava as primeiras ideias melódicas.

Contamos com a participação de um grande saxofonista, chamado Felipe Ricardo. Antes de fechar a música no estúdio, a banda conversou e achou que seria interessante uma participação de sopro e depois fiz minhas edições do sax, coloquei efeitos de repetição e filtros de frequência para criar uma sonoridade não convencional.

6 – Lucidez

Era uma grande jam que fazíamos a partir de um tema que se repetia. Tocamos tantas vezes que virou algo longe de uma jam. Decidi, então, que faria parte do disco, pois cabia perfeitamente no conceito. Houve muita inspiração em alguns trabalhos do atual guitarrista do RHCP, Josh, com o ex-guitarrista, J.Frusciante, principalmente nas linhas de guitarra. Essa música traz referência da primeira canção do disco, onde um discurso em alemão é executado no meio dos riffs, acordes, temas e grooves. O mesmo executado em “Pobre Menino”.

Queria muito ter uma parte com letra, em português, foi aí que criei uma letra para que a Maria Rosa Lima pudesse encaixar sua bela voz.

7 – Valsa

É uma composição do Bruno Azevedo, nosso baterista. Ele chegou com ela praticamente pronta e finalizamos, somente,  algumas ideias de arranjo, no ensaio. Na pós-produção acrescentei alguns timbres bem graves e mais percussão, pra dar um ar mais groovado. É uma valsa que tem seus momentos de peso, com riff cheio de fuzz junto com o baixo, marcando bem o tema tocado. Há uma brincadeira rítmica pelo meio da música, é na parte do riff. Fica tudo quebrado e cai para uma parte mais ambiente chamando o clímax da música, representado por um arranjo de orquestra de cordas bem aparente.

8 – Desconexão

Como o próprio nome já diz,” Desconexão” é uma música com frases quase que sem conexão alguma. É, na verdade, um diálogo entre duas pessoas, ou, entre uma pessoa e sua mente. Você decide.

Gravei em uma madrugada, já compus a música gravando direto no computador. Fiquei gritando pelo estúdio (meu quarto) sozinho. O estranho é que nunca mais consegui tocar com aquela energia, então achei que a versão ficou perfeita para o disco. Até gravei uma versão mais editada, com mais arranjo, mas aquela verdade ali, só consegui naquele momento.


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(Jornalista)

Gustavo é jornalista e gerente de comunicação do selo Urtiga.

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